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Atualidades: Daniel Ortega e a crise na Nicar√°gua

Desde o primeiro semestre, a Nicarágua, um país da América Central, está em evidência no noticiário internacional por conta da crise política que afeta esse país. A crise na Nicarágua é resultado da insatisfação da população local com o governo de Daniel Ortega, presidente do país desde 2007 acusado por seus opositores de corrupção, má gestão e uso de violência contra a população.

Qual a origem da crise na Nicar√°gua?
A crise que atinge a Nicarágua atualmente iniciou-se em abril de 2018, quando o presidente do Instituto Nicaraguense de Seguridade Social, Roberto López, anunciou que seriam realizadas reformas no sistema previdenciário do país. A decisão do governo de Ortega determinava um aumento de 5% na cobrança de imposto a ser recolhido, tanto dos empregadores quanto dos trabalhadores, para a seguridade na Nicarágua.

Essa decis√£o do governo Ortega foi motivada pelas press√Ķes realizadas pelo Fundo Monet√°rio Internacional (FMI) para que o governo nicaraguense equilibrasse as finan√ßas do pa√≠s. A decis√£o do governo em reformar a previd√™ncia nacional gerou grande insatisfa√ß√£o na sociedade nicaraguense. Assim, no dia 18 de abril de 2018, protestos foram organizados pela popula√ß√£o contra essa medida.

Esses protestos da popula√ß√£o nicaraguense foram reprimidos com bastante trucul√™ncia pelas for√ßas policiais, o que revoltou a popula√ß√£o e tornou os protestos mais violentos. Outra consequ√™ncia direta da viol√™ncia policial foi a convoca√ß√£o de novos protestos populares (estava pela popula√ß√£o). Segundo o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos, somente nessa jornada de protestos em abril, o n√ļmero de mortos foi de, pelo menos, 25 pessoas. Houve tamb√©m dezenas de feridos e centenas de presos.

O governo de Daniel Ortega foi acusado de autorizar a violenta repressão dos policiais e de armar grupos paramilitares (grupos militares armados pelo governo) que atuam no país, de forma violenta, intimidando manifestantes. Esses grupos paramilitares também são acusados de assassinar, indiscriminadamente, pessoas, independente de terem participado ou não dos protestos contra o governo de Daniel Ortega.

A ação desses grupos paramilitares chamou a atenção do Brasil, pois uma brasileira que estudava medicina há seis anos na Nicarágua foi assassinada por um desses grupos paramilitares. A estudante, de 31 anos, chamava-se Raynéia Gabrielle Lima e foi alvejada enquanto dirigia de volta para sua casa.

Investiga√ß√Ķes feitas pela imprensa nicaraguense t√™m afirmado que a morte da estudante brasileira foi de responsabilidade de grupos paramilitares que atuam na defesa do governo de Ortega e que est√£o diretamente ligados a Chico L√≥pez, tesoureiro do partido Frente Sandinista de Liberta√ß√£o Nacional (FSLN), do qual Daniel Ortega faz parte.

A viol√™ncia coordenada pelas for√ßas de defesa de Daniel Ortega contra a popula√ß√£o nicaraguense, at√© este momento, foi respons√°vel por centenas de mortos e milhares de feridos. A Associa√ß√£o Nicaraguense Pr√≥-Direitos Humanos afirma que s√£o 351 mortos (dos quais 306 s√£o civis), mais de 2 mil feridos e 261 desaparecidos. A crise pol√≠tica na Nicar√°gua, segundo analistas internacionais, parece ser t√£o intensa quanto a venezuelana, por√©m, os bons rendimentos econ√īmicos da Nicar√°gua nos √ļltimos anos (crescimento m√©dio de 4% nos dois √ļltimos anos) t√™m poupado Ortega de maiores cr√≠ticas.

O que exigem os manifestantes?
A princípio, os manifestantes exigiam a revogação da reforma no sistema previdenciário do país. Por conta da violência dos protestos e temendo que a situação fugisse do controle, o governo de Ortega recuou e, no dia 22 de abril (4 dias depois do início dos protestos), anunciou o abandono da proposta de reforma na previdência da Nicarágua.

Os protestos, no entanto, prosseguiram, e a situação segue complicada no país, mesmo após vários meses. O que, então, tem motivado a população nicaraguense manter os protestos contra o governo de Ortega? A resposta dos analistas internacionais para essa questão está relacionada à decepção da população com o atual governo de Daniel Ortega, antigo líder revolucionário do país.

Daniel Ortega tornou-se presidente da Nicar√°gua, pela primeira vez, na d√©cada de 1980, ap√≥s ser um dos grandes nomes da Revolu√ß√£o Sandinista, e tinha um discurso bastante progressista de defesa da igualdade social. Ao retornar √† presid√™ncia ap√≥s vencer as elei√ß√Ķes presidenciais de 2006, Daniel Ortega assumiu uma postura pragm√°tica n√£o compat√≠vel com seu discurso das d√©cadas de 1970 e 1980.

Essa mudança de postura fez com que muitos dos antigos sandinistas rompessem com Daniel Ortega e com seu governo. Esse processo de desgaste iniciou-se no primeiro ano do governo de Ortega, em 2007. Assim, a atual crise da Nicarágua é resultado de um desgaste político que se acumula há mais de dez anos.

As críticas ao governo de Ortega são muitas, e seus opositores acusam-no de corrupção e de enriquecimento ilícito, assim como de nepotismo, pois sua esposa, Rosario Murillo, é a atual vice-presidente do país, e seus filhos assumem cargos governamentais importantes. Ortega também é acusado de abandonar ideais que defendeu em outros momentos e de aliar-se com o empresariado do país, que, com o estourar da crise, rompeu com Ortega. As tentativas de implantar medidas de austeridade (arrocho na economia por meio do aumento de impostos) foram o estopim para população.

Neste momento, os manifestantes nicaraguenses exigem melhorias na democracia do pa√≠s, ren√ļncia de Daniel Ortega da presid√™ncia, convoca√ß√£o de elei√ß√Ķes presidenciais emergenciais para 2019 e, por fim, investiga√ß√£o e puni√ß√£o dos respons√°veis pelas recentes mortes relacionadas √† a√ß√£o dos grupos paramilitares.

Quem é Daniel Ortega?
Daniel Ortega é o atual presidente da Nicarágua e está em seu terceiro mandato, vencido na eleição de 2016. Daniel Ortega foi escolhido com mais de 70% dos votos, mas sua vitória foi bastante contestada pela oposição, que alega que o presidente do país manipulou os resultados.

A hist√≥ria de Daniel Ortega iniciou-se na d√©cada de 1960, quando ele aderiu √† guerrilha sandinista, que lutava no pa√≠s contra a ditadura dos Somoza ‚Äď fam√≠lia que governava Nicar√°gua desde a d√©cada de 1930. Os sandinistas era um grupo guerrilheiro com ideais ligados √† esquerda. Eles surgiram na Nicar√°gua a partir da luta coordenada por Augusto C√©sar Sandino, guerrilheiro nacionalista, morto em 1934, que lutava contra a influ√™ncia dos Estados Unidos na Nicar√°gua.

Com a ditadura dos Somoza, os sandinistas sofreram perseguição implacável e só retomaram suas forças no final da década de 1950, sobretudo após o sucesso da Revolução Cubana. Os sandinistas ganharam força e recrutaram estudantes, camponeses, trabalhadores urbanos e, assim, surgiram guerrilhas nos meios rurais e urbanos. O FSLN surgiu de maneira oficial nesse contexto e foi criado em 1961.

A luta dos sandinistas contra os Somoza ganhou força, e, em 1979, uma guerra civil eclodiu na Nicarágua. Essa situação forçou os Somoza a fugir do país e levou os sandinistas ao poder. Os sandinistas permaneceram no poder até 1990. Entre 1985 e 1990, o país foi governado por Daniel Ortega, que, durante seu governo, realizou reforma agrária, promoveu campanhas de alfabetização e vacinação para a população, procurou diminuir a desigualdade social e combater a influência estrangeira no país.

Paradoxalmente, o Ortega de hoje √© totalmente diferente daquele Ortega que lutou pelos sandinistas na d√©cada de 1980. Ortega tomou terras dos camponeses, aproximou-se do FMI e do empresariado que um dia criticou, decidiu implantar medidas econ√īmicas de austeridade e tornou-se um autocrata (governante com poder absoluto). H√° inclusive uma forte cr√≠tica feita a Daniel Ortega por ter-se tornado exatamente o que criticava d√©cadas atr√°s: ‚ÄúOrtega y Somoza son la misma cosa‚ÄĚ (Ortega e Somoza s√£o a mesma coisa).

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Estudante, fique atento aos desdobramentos da situa√ß√£o na Nicar√°gua, pois h√°, neste momento, uma grande indefini√ß√£o dos caminhos que o pa√≠s da Am√©rica Central pode seguir. De toda forma, √© importante manter-se atento a algumas quest√Ķes:

Revolu√ß√£o Sandinista: alguns analistas afirmam que h√° uma dist√Ęncia muito grande do sandinismo para a pol√≠tica atual de Ortega (chamada de orteguismo). Assim, √© bom atentar-se para o que foi a Revolu√ß√£o Sandinista, seus princ√≠pios e quais as diferen√ßas entre o governo atual de Ortega e os ideais sandinistas.

Crise na Am√©rica Latina: h√° muitas semelhan√ßas (mas tamb√©m muitas diferen√ßas) entre a crise que afetou a Nicar√°gua e a que atingiu a Venezuela. Em partes, uma refletiu-se na outra, pois um dos grandes parceiros econ√īmicos da Nicar√°gua √© a Venezuela. Portanto, √© importante estar a par dos acontecimentos nos dois pa√≠ses. Esse exerc√≠cio de compara√ß√£o pode ser ampliado ao analisarmos o fracasso das pol√≠ticas de massa coordenadas por Maduro, na Venezuela, e por Ortega, na Nicar√°gua. Por fim, podemos tamb√©m analisar a quest√£o da viola√ß√£o dos direitos humanos nos dois pa√≠ses.

Fonte: Brasil Escola

Postado em: 05/09/2018