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Maio de 68 já caiu duas vezes na história do Enem; professores explicam como estudar o tema

considerado "o ano que nunca acabou", 1968 foi palco de movimentos estudantis que come√ßaram "quase sem querer" em Paris, com protestos que ficaram conhecidos como Maio de 68, e reverberaram pelo mundo, inclusive no Brasil, onde, em dezembro, a ditadura militar iniciou seu per√≠odo mais obscuro, com a edi√ß√£o do Ato Institucional N¬ļ Cinco (AI-5). Meio s√©culo depois, veja como ele pode ser entendido pelos vestibulandos e como pode ser abordado nas provas.

Na Fuvest, que seleciona para vagas na Universidade de S√£o Paulo (USP), e no vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele nunca foi pedido diretamente.

Mesmo assim, M√°rcio Barbosa, consultor pedag√≥gico do SAS Plataforma de Educa√ß√£o, explica que ele tem import√Ęncia para os vestibulandos.

"Foram duas quest√Ķes especificamente, mas j√° houve v√°rias outras que falam de movimentos que tiveram nascedouro l√°", diz Barbosa.
Para o professor Elias Feitosa de Amorim Jr., que dá aulas de história no Cursinho da Poli, é essencial que os estudantes se lembrem do espaço que o Enem dedica aos movimentos sociais.

"Vale lembrar que o Enem tem uma competência que trata da compreensão dos movimentos sociais e a partir dela, um acontecimento como "Maio de 68" pode ser cobrado, já que a questão começa pela escolha da competência, depois da habilidade e por fim, do tema", explica Feitosa.
Ele se refere √† compet√™ncia da √°rea de ci√™ncias humanas que espera que os candidatos saibam "compreender a produ√ß√£o e o papel hist√≥rico das institui√ß√Ķes sociais, pol√≠ticas e econ√īmicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais".

Dentro dessa competência, a matriz de referência do Enem lista cinco habilidades:


Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço
Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades
Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou rupturas em processos de disputa pelo poder
Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos anal√≠ticos e interpretativos, sobre situa√ß√£o ou fatos de natureza hist√≥rico-geogr√°fica acerca das institui√ß√Ķes sociais, pol√≠ticas e econ√īmicas
Avaliar criticamente conflitos culturais, sociais, pol√≠ticos, econ√īmicos ou ambientais ao longo da hist√≥ria
Década de agitação global
O processo que desencadeou o movimento teve origem em uma s√©rie de insatisfa√ß√Ķes que se acumulavam na d√©cada de 1960.

"O apogeu do acirramento entre os Estados Unidos e a Uni√£o Sovi√©tica ocorreu em 1962 com a crise dos m√≠sseis de Cuba. A partir daquele momento, os l√≠deres das superpot√™ncias iniciaram uma a√ß√£o de redu√ß√£o das tens√Ķes e uma aproxima√ß√£o, processo conhecido como d√©tente, ou seja, distens√£o", explica Elias Feitosa, professor do Cursinho da Poli, citando tamb√©m protestos dentro da "Cortina de Ferro", "como as revoltas da Hungria e da Tchecoslov√°quia tamb√©m em 1968 (duramente reprimidas pela URSS)".

Ele diz ainda que "a guerra do Vietn√£ gerou um processo de rep√ļdio √† a√ß√£o norte-americana, culminando com o movimento hippie como manifesta√ß√£o da contracultura, tendo. no ano de 1969, o festival de Woodstock como um de seus expoentes".

De protesto localizado à greve geral
Na pr√°tica, por√©m, Maio de 68, come√ßou com um protesto de reivindica√ß√Ķes bastante espec√≠ficas. Em 22 de mar√ßo, estudantes da Universidade Paris-Nanterre ocuparam um pr√©dio da administra√ß√£o pedindo que os estudantes homens fossem autorizados a entrar nos dormit√≥rios das estudantes mulheres, e tamb√©m se opondo √† guerra do Vietn√£.

A ousadia estudantil serviu de estopim a outros protestos e, em poucas semanas, no início de maio, estudantes estavam arrancando os paralelepípedos de Paris para atirar nos policiais, e os protestos passaram a não ter começo nem fim: barricadas foram montadas de forma permanente.


Essa "agitação cultural" foi abordada na edição 2012 do Enem em uma questão da prova de ciências humanas:

Questão do Enem 2012 sobre o movimento de Maio de 1968; veja a resposta correta e a resolução no vídeo acima (Foto: Reprodução/Inep) Questão do Enem 2012 sobre o movimento de Maio de 1968; veja a resposta correta e a resolução no vídeo acima (Foto: Reprodução/Inep)
Questão do Enem 2012 sobre o movimento de Maio de 1968; veja a resposta correta e a resolução no vídeo acima (Foto: Reprodução/Inep)
Inspirados pela rebeldia juvenil, os oper√°rios e funcion√°rios de empresas decidiram tamb√©m se levantar contra m√°s condi√ß√Ķes de trabalho e de negocia√ß√£o salarial, e a Fran√ßa se viu afetada por uma greve geral que mobilizou v√°rios milh√Ķes de cidad√£os.

O presidente da Fran√ßa, Charles de Gaulle, quase foi obrigado a renunciar por causa da for√ßa que o movimento ganhou, mas um acordo entre os sindicatos colocou fim √† greve geral, e uma reforma universit√°ria acabou acalmando os √Ęnimos dos universit√°rios.

Nascedouro de movimentos sociais
O inesperado tamanho e o forte impacto que os protestos estudantis tiveram na sociedade francesa, somados aos demais acontecimentos que abalaram o mundo naquele ano, como o assassinato de Martin Luther King, em 4 de abril, fizeram com que Maio de 68 seja considerado a origem de muitos movimentos sociais, e inspire diversas articula√ß√Ķes at√© hoje, segundo explica o professor M√°rcio Barbosa, do SAS.

"Foi l√° o pontap√© inicial da liberdade que hoje a universidade promove, que a juventude promove. Todos os movimentos que saem de 68 t√™m esse contexto porque o mundo tinha uma polariza√ß√£o muito forte, no capitalismo e socialismo da Guerra Fria. Tudo isso acabou repercutindo para que viessem as quest√Ķes raciais e sociais e a liberdade de que a gente tanto fala hoje."


Barbosa lembra que, por isso, o assunto pode ser abordado nos vestibulares tanto com uma perspectiva da história quanto da sociologia.

"Foi um trabalho muito forte, uma grande massa de trabalhadores, e teve o acordão que foi feito de forma patronal", explica ele sobre o acordo entre governo e sindicatos que levou benefícios aos trabalhadores e ajudou a encerrar a crise política. "[O candidato] tem que ver isso de forma muito tranquila, analítica", diz ele sobre uma possível questão abordando esse aspecto do assunto nos vestibulares.

O Brasil em 1968
No Brasil, o movimento estudantil na França teve impacto direto nos protestos da União Nacional dos Estudantes (UNE), segundo explica Feitosa.

"Em meados de 1968, a UNE, apesar de extinta, ainda conseguia liderar manifesta√ß√Ķes importantes, como a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. Enquanto isso, o Ex√©rcito fazia grande campanha para que as comemora√ß√Ķes do Dia da Independ√™ncia tivessem ampla participa√ß√£o popular. Mas, na C√Ęmara Federal, o deputado do MDB M√°rcio Moreira Alves, num discurso, convidou a popula√ß√£o a boicotar os desfiles de 7 de Setembro. Os militares pressionaram o Congresso para cassar o mandato do deputado, mas os parlamentares n√£o aceitaram", lembra ele.

"Assim, em 13 de dezembro de 1968, o governo fez baixar o AI-5 [Ato Institucional N√ļmero Cinco], que dava ao Executivo o direito de colocar em recesso o Congresso Nacional e estabelecia a suspens√£o de todas as garantias constitucionais dos acusados de crime contra a Seguran√ßa Nacional, a interven√ß√£o nos Estados e munic√≠pios, a restri√ß√£o do habeas corpus, a censura pr√©via aos meios de comunica√ß√£o etc."

Mas Feitosa alerta que o assunto n√£o se esgota no vestibular apenas nas informa√ß√Ķes factuais sobre datas e acontecimentos. Em 2011, o Enem abordou as atividades culturais da UNE na d√©cada de 1960 em uma quest√£o

Segundo o professor, "n√£o s√£o quest√Ķes factuais, assim sendo, o candidato(a) deveria fazer a rela√ß√£o do papel dos estudantes na sociedade, levando em conta o contexto hist√≥rico e o conjunto de elementos sociais envolvidos: combate ao conservadorismo, defesa das liberdades, revis√£o dos padr√Ķes morais".

O Enem e a educação de hoje
De acordo com Barbosa, consultor pedagógico do SAS, a própria abordagem interdisciplinar do Enem e as metodologias educacionais que buscam a formação integral dos estudantes como cidadãos são resultados dos movimentos sociais que surgiram após Maio de 68.

"A educação brasileira tem uma mudança de 360 graus quando se pensa no aluno de maneira integral", afirma ele.

"Hoje esses modelos de avalia√ß√£o questionam o aluno a ir al√©m do fato, ver quais s√£o as implica√ß√Ķes disso para a vida. Ele tem que fazer muita rela√ß√£o daquilo que est√° nos livros de hist√≥ria e de sociologia com a aplica√ß√£o no mundo real. Isso tem feito os alunos estudarem mais e melhor."

Fonte: G1

Postado em: 11/05/2018